segunda-feira, 19 de junho de 2017

Ode a Iván Fandiño

Montagem: Foto do quadro Guernica (Picasso,1937) com imagem de Iván Fandiño ferido mortalmente (AFP Photo,2017).

Ode a Iván Fandiño

Morreu Fandiño.
Vá correr entre nuvens,
Tourear relâmpagos,
Espetar no dorso de nuvens negras
Bandarilhas de estrelas e cometas!
Estás mais perto agora...
Do lugar onde habitam os corajosos.
Livre dos que gostavam do insosso,
Dos que detratavam tua arte.
Mas há os que lamentam tua morte,
E, mesmo assim, com pena da partida,
Reverenciam quem te venceu, dessa vez.
Quem entende tua arte,
Ancestral como o homem,
Não reverencia a morte.
Nem de um, nem de outro.
O embate na plaza
É sempre justo.
E não há, ali, inimigos.
Duas criaturas em suas naturezas.
Viris e selvagens.
Como a vida.
Onde ambos em combate,
Vencedor e vencido,
Reverenciam seus deuses.
A morte não escolhe simpatias.
Nem há menos desonra
Para quem fica ou parte.
O ritual há muito pode ter se perdido,
Ou é ignorado...
Por quem tem os olhos castrados.
Loucos e sádicos,
Comemoram tua morte
Como se fosse um ato de justiça.
São os que fecham os olhos
Para mortandades maiores.
Para além dos matadouros,
Com seus pisos lavados em sangue.
Milhões de rezes, muitas tenras ainda.
Morrem, para satisfazer a carne.
Sem sacrifício ou oferenda.
Gente que se importa com bicho,
E deixa morrer os semelhantes.
Há guerras sem fim,
Mas se importam com um touro.
Se empanturram de carne,
Assistem às guerras,
Sentados à sala de comer.
Seus pratos cheios e as cabeças vazias.
Reclamam que o naco está duro,
Ou lhe falta o sal.
Depois, no café, reclamam do açucar.
Olhando a tela tétrica,
Com a pança cheia,
Os milhões que tem fome, pela guerra.
As crianças vagando, magras.
Órfãs de batalhas que não entendem.
Vai Fandiño...
E de onde estiveres,
Distrai com tua capa amarela e encarnada,
Os senhores da guerra.
E como fazias tão habilmente,
Espeta-lhes o torso com três bandarilhas:
Uma pelos inocentes que mataram,
Outra pelos que sofrem semivivos
E outra pelos que tombaram,
Em defesa dos que sofriam tiranias.
Para que com elas despertem,
E sintam com toda a força
A estocada final.






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