terça-feira, 18 de julho de 2017

Para meu polegar...

Na foto: pimenta dedo-de-moça, vermelha, sobre fundo preto. Créditos da imagem: Marcelo Ruiz, RJ-2016


Fui homem de poucos enamores, tão poucos, que me bastam os dedos das duas mãos, para contar-lhes. E lhes conto meus amigos, sobraram ainda dedos. Desses dedos ocupados por essa conta, em uma das mãos cabem as que me relacionei de forma mais séria. Foram duas noivas, no mindinho e no anular. Mais três esposas, que ficaram com o médio, o apontador e o polegar. Sim, fui prolífico em casamentos, porque faltava o polegar. Dizem os científicos que o polegar opositor foi o que nos diferenciou, do resto das espécies. Um único dedo, que colocado em posição diversa, do resto dos seres viventes, nos fez tão humanos. E desumanos.

E era essa, que ocupou o principal dedo das mãos, sem o qual, uma mão não é mão. Apenas punhado de dedos sem função, que nada agarram sem precisão. Era essa, que para as coisas da vida, tal o polegar, me faziam agarrar sonhos e destinos com a necessária precisão. Já que os outros, como outras, não me  deram, para a grande tarefa de ser, humano, habilidade, força ou jeito. Para o que era preciso ser feito. Não que fosse delas a culpa ou que não tivessem tentado ajudar. O que precisasse eu segurar. E  porque, para além de tudo, qualquer dos dedos de uma mão,  têm sua graça, feitio e função.

Ah esse polegar... que me falta hoje, como faz falta. Olhar para essa mão manca, já que não sou destro, é e me faz sinistro. E menos destro. Mesmo a lembrança dos dedinhos, que que delas, junto com as Dela, nasceram, completando meus braços, como à uma árvore, com seus muitos dedos que vem e vão, não me tira a saudade da minha mão completa. Em algum lugar do jardim, errei de mão. Talvez, mesmo, tenha pesado a mão em algum momento de aflição. Será que acabarei, nesse jardim, a quem ainda faltam, muitas árvores a plantar, como tronco velho, apodrecido, sem galhos, esquecido, de musgo e hera coberto, tombado em algum canto?

Que pelo menos, se assim for, mesmo sem polegar, que em mim venham sentar um casal de namorados, em noite de luar. Ou que em meu oco, façam passarinhos e bichinhos, seus ninhos de novas vidas. Ou ainda que eu vire banco, porta, placa, peça, pedaço, de lenha ou apara. De uma casa nova, onde mãos inteiras, que encontraram seu polegar, venham de minha velha serventia aproveitar.


Para Ana Claudia, meu sempre polegar.

Um comentário:

  1. Para mim o importante é que você continue criando, encontrando e fazendo sentido.
    Faça valer o Seu polegar.
    Grande beijin e grata pelas palavras. Você sabe como dize-las.

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