segunda-feira, 12 de junho de 2017

Espera por ela...

Foto: Marcelo Ruiz

Mais um Dia dos Namorados...em tempos de tanta violência de gênero e de orientação sexual, falta o respeito ao outro como Ser Humano. Para além de gêneros e identificações, a todos nós faltam a tolerância, o amor, e, no mínimo a solidariedade e empatia. O poema abaixo, de Mahmûd Darwîsh, poeta palestino que foi apaixonado por uma israelense, é dedicado a todas as mulheres e homens de todas as cores, sabores que ainda sofrem violências e constrangimentos, estando com ou sem namorado ou companheiro, que muitas vezes são os piores agressores. E aos que ainda agridem que é diferente de si por ser no fundo um covarde, gostaria que pudessem ler isso e entender, no mínimo, que a companheira ou companheiro, que o estranho na rua que se veste diferente ou pensa diferente não é inimigo. Cada um é especial à sua maneira e merece ser esperado e tratado com carinho e acolhimento, exatamente como faria um amante à espera do seu amor na alcova...

Aula do Kamasutra (Espera por ela)
Mahmûd Darwîsh
Tradução: André Simões

Com um copo com adornado de lazúli
espera por ela

Sobre o lago em volta da tarde e o perfume de flores
espera por ela

Com a paciência do cavalo pronto para descer a montanha
espera por ela

Com o bom gosto do príncipe magnífico
espera por ela

Com sete almofadas cheias de nuvens leves
espera por ela

Com o fogo do incenso mulher enchendo o lugar
espera por ela

Com o cheiro do sândalo homem em redor do dorso dos cavalos
espera por ela

E não tenhas pressa, e se ela chegar depois da hora
então espera por ela

E se ela chegar antes da hora
então espera por ela

E não assustes os pássaros que estão nas suas tranças
e espera por ela

Para que ela se sente descansada como um jardim no cimo da sua beleza
e espera por ela

Para que respire este ar estranho no seu coração
e espera por ela

Para que levante o vestido das suas coxas, nuvem por nuvem
e espera por ela

E trá-la à varanda para ver uma lua afogada em leite
espera por ela

E oferece-lhe água antes do vinho, e não
olhes para as perdizes gémeas a dormir sobre o seu peito
e espera por ela

E toca-lhe a mão devagarinho quando
pousa o copo sobre o mármore
como se lhe levasses orvalho
e espera por ela

Fala com ela como uma flauta
com a corda assustada de um violino
como se fôsseis os dois testemunhas do que o amanhã vos prepara
e espera por ela

Ilumina-lhe a noite anel por anel
e espera por ela
até que a noite te diga:
não ficaram senão vós dois no mundo

Portanto leva-a com cuidado para a tua morte desejada
e espera por ela

Mahmûd Darwîsh


Tradução: André Simões

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