quinta-feira, 18 de maio de 2017

Não verás país nenhum...

Cena da capital do Haiti dias após o terremoto de 2010. Fonte: https://www.britannica.com/event/Haiti-earthquake-of-2010

No dia 12 de janeiro de 2010 às 16:53 o Haiti foi sacudido por um terremoto de magnitude 7 MW que destruiu grande parte da capital e outras cidades ao redor. Desde essa data, o país, que já vinha de uma longa história de um governo corrupto e ditatorial, nunca mais se reergueu. Simplesmente os fundamentos da Republica, como alicerce de uma nação e povo se extinguiram. Hoje, apesar de anos de ajuda humanitária, econômica e intervenções de paz - da qual o Brasil é país que lá está ha mais tempo comandando a equipe da ONU - apesar de se realizarem eleições diretas e tentativas de tornar o país autônomo, a coisa toda não anda. O Brasil sofreu hoje mais um grande terremoto. Só que ao contrário do seu congênere, causado pelas forças da natureza, esse era previsto e esperado. Mas o fato é que a cada réplica do abalo vai ficando mais fraca a esperança de haver sobreviventes sob os escombros. Não temos e nem teremos mais país nas próximas décadas. O grau de estrago significa uma coisa: não estávamos preparados para terremotos. As construções sempre foram fracas e os planos de emergência nunca existiram ou se tal , não saíram do papel. Como disse Ignácio de Loyola Brandão "Não Verás País Nenhum"...

Uma linda mulher...

Chelsea Manning em seu segundo dia de liberdade. Fonte: https://twitter.com/intent/follow?screen_name=xychelsea

Chelsea Elizabeth Manning pode hoje entrar em qualquer lista do tipo "as dez mulheres mais influente do mundo". Sempre teve meu respeito e admiração, desde quando, ainda com a identidade de soldado do exército dos Estados Unidos da América, quando era conhecido como Bradley Edward Manning, teve a coragem de vazar documentos secretos da CIA (no chamado caso Cablegate) para o Wikileaks. Não foi a única. Ela e outros que tiveram a mesma bravura - mostrar a podridão dos bastidores do país mais poderoso do mundo - enfrentam a ira de governos mundiais, julgamento da opinião pública, vida em exílio (como Edward Snowden) ou o refúgio diplomático (Julian Assange).

sábado, 13 de maio de 2017

Acendam-se as fogueiras, mudem as leis ou os preconceitos.

Dois presos e uma medida: não queremos corrigir. Apenas vigiar e punir. Fotomontagem com arquivos disponíveis na web. 

Não estou julgando os apenados e nem os responsáveis pelas suas saídas intermitentes. Me atenho aos fatos e a Lei. Os crimes que praticaram foram julgados e as penas fixadas. Um já com sentença definitiva e quase ganhando a liberdade condicional. Outro julgado em primeira instância aguardando recurso. Os dois – pelas leis brasileiras – tem direitos distintos à liberdade provisória.

Um pelo tempo já cumprido e pelas prerrogativas legais tem direito ao regime semiaberto e a saídas nas datas determinadas pela lei. A não ser que caiba dizer que o juiz ou conselho concedente ou o próprio apenado estão burlando a lei. E não parece o caso.

segunda-feira, 8 de maio de 2017

A arte de Grace e a graça da Arte.

Capa do primeiro EP da artista. Fonte: Google. 

Ok... ontem (ainda agora...) foi dia do artista plástico e eu queria ter postado algo além da lembrança da data. Mas saiu só agora. Muito se faz as perguntas clichê "O que é arte?" e "Quem é Artista" seja de qual arte for. E essa mocinha talentosa - Grace VanderWaal - nos ajuda a entender e responder às duas perguntas anteriores. Eu costumo colocar essas questões de maneira diferente, perguntando o que É o artista e Quem é a arte. 

Tudo uma questão de relativizar. Tanto que apenas inverto o uso dos pronomes relativos nas duas questões. Com isso pretendo, para fins de incitar mais do que responder (se me perguntam), despersonalizar o agente e dar status de ente vivo à sua criação. Porque trata-se apenas disso. O artista está posto no mundo como ente humano, mas transcende essa dimensão. Não podendo, portanto, ser rotulado ou en-caixado É imanente, assim como sua arte. E é separado de sua obra apenas pela vontade do outro, que atribui a ela uma suposta vontade de existência indivi-dual . Um poder estar de pé per se que a faz ter existência própria à revelia do criador.

terça-feira, 18 de abril de 2017

Um videoclipe diferente e excelente...


Aos colegas de profissão e afins... deem uma olhada em Fairy Dust da TLo... primeiro de uma série futura de quatro curta-metragens que a cantora e produtora pretende realizar. Não sei se inaugura, mas é uma proposta bem interessante no universo dos video-clips musicais, já que ultrapassa a barreira da duração da música-título e segue por 31 minutos, encadeando a ação com as 5 primeiras músicas do album recém lançado e apresenta uma inédita. Extremamente sensual e sexual, não tem nada explicito. Não há nenhuma cena de nudez também. O que o torna mais interessante. A fotografia é muito boa, assim como o áudio (com vários takes com som direto - o que aprecio muito...) Sem efeitos especiais, tipo "puta-que-pariu-nas estrelas", valoriza o movimento da câmera em longas e bem estudados plano-sequencia. Sempre digo que simplicidade e qualidade é a chave pra não errar.

A famosa "loura sueca" ...

Fonte: https://www.instagram.com/p/BQdVy4JjzT9/?taken-by=tovelo


Para os amigos machos empedernidos de plantão... (não sou um deles...) Lembro de crescer escutando os caras mais velhos falando e fazendo piadas da loura sueca... alias ela era uma espécie de mito da sexualidade masculina, motivo de charges e crônicas. Uns quarenta e tantos anos depois a "loura sueca" ainda não perdeu a fama de mulher sedutora.
Mas não se animem velhos amigos machistas e misóginos. A loura continua gostosa pra car*lho porém é independente, ativista da igualdade de gêneros, estourou na música por ter linguagem artística própria e ir fundo nos problemas de sua geração nas letras nem sempre ácidas mas verdadeiras.

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

Deslumbra-se o tolo...


Triste ver pessoas deslumbradas... me parece gente de pouca luz. E se a alma não brilha, tudo ao redor ofusca. Melhor seria que as pessoas mostrassem seu vislumbre, quallidade intrínseca aos que compartilham a própria luz...

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

O amor em tempos de cólera(*)...

Fonte: Twitter/Divulgação


Sim...gosto muito dessa foto! Não por idolatrias. Não por preferências políticas. Mas alem da qualidade técnica e estética da imagem, pelo que ela representa no campo abstrato das relações humanas. Sim Marisa Letícia representa a mulher brasileira. Com defeitos e virtudes. São muitas galegas, de todas as cores e gêneros que fazem o perfil da brasileira. Não sei se me engano, mas a imagem me passa cumplicidade, amor e companheirismo. No melhor sentido que se pode dar a elas. Os pejorativos deixo aos que odeiam sem racionalidade. Marisa representa a mulher que casou com seu homem por paixão e até por idealismo. Com certeza não foi por dinheiro. O cônjuge embora já relativamente famoso, não era rico. E o que ela podia esperar naqueles dias era perde-lo assassinado ou sumido como muitas perdem até hoje. Ela representa a mulher que segue na dificuldade de criar filhos sozinha, dando espaço às ausências do marido. Seja por qual motivo for. Representa a companheira que luta ao lado e não desiste fácil aos primeiros revezes. Como mulher vaidosa, representa tantas outras que, tendo visto a beleza da juventude sucumbir com o passar dos anos, procura melhorar assim que melhora de vida porque tem autoestima. Representa a mulher que consegue manter, seja lá por qual razão de foro íntimo, o casamento e a familia por décadas. E mesmo na adversidade, seja qual for, incondicionalmente está ao lado do companheiro. Para ter representatividade não precisa ser a melhor, a mais bonita, educada, ou mais rica. Os não racionais - e há muitos - encontrarão no ódio, na falta de discernimento e inteligência, no fanatismo político, campo fértil para exercitar suas frustrações e sentimentos corrompidos. Certamente vão odiar também esse texto. Mas o campo do que aqui está escrito não reside no mundano. Falar de amor em tempos de cólera (*citando Márquez,G.G.-1985) é difícil mesmo...

Perdas e danos...

Marisa e Luiz Inácio no dia do casamento em São Paulo, 1974. Fotógrafo ignorado.



É muito triste perder alguém com quem se conviveu muitas décadas. Mesmo que o amor tenha se transformado em qualquer outra coisa que não fosse o ódio. E talvez até nele, haja desespero. Perder a parceria de uma vida quase toda dói em qualquer um. E me parece que ao homem maltrata mais. Não que a mulher se importe menos. Mesmo sem admitirmos, somos mais carentes e dependentes delas. Desde a nossa gênese. Ninguém deveria perder seu amor. Não importa o que sejam os amantes. Não vejo aqui sujeitos ou personagens. Não me importam. São entidades a serem julgadas pelos homens e pela história. Mas quem falará da paixão e do amor dessas pessoas? E de tantas outras que perdem o que lhes era mais caro? É muito difícil ficar sem nosso amor de tantas travessias. Em todas as nossas alegrias e misérias não haverá nada mais belo ou mais triste. Só o destino pode nos impor, em sua frieza matemática, castigo tão cruel.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

Jornalismo REDOX...

Sidnei Ramis de Araújo com o filho (disponível em http://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2017/01/1846341-pai-do-atirador-de-campinas-diz-que-filho-era-timido-e-retraido.shtml) fonte: Reprodução/Facebook

O "atirador" também foi vítima. A família dele tão vitimada e sofrendo quanto a da ex-mulher e os familiares dela que ele matou antes de tirar a própria vida. Assassinos seriais ou terroristas dificilmente tiram a própria vida. Tentam sempre escapar da cena do crime. Se matam em ultimo caso quando se vêem encurralados. O objetivo deles é escapar para cometer mais crimes. Esse rapaz tinha emprego fixo, familia e nenhuma passagem pela polícia. Estava há cinco anos separado da mulher e do filho. Procurou ajuda da justiça, onde foi parcialmente atendido. Mas não procurou ajuda psicológica para superar os conflitos. Nem a família sabia que estivesse tão doente e desequilibrado. Nada justifica o que ele fez. Mas o descaso da sociedade e da Justiça explicam o fato.

domingo, 1 de janeiro de 2017

Um alerta... na verdade um chamamento à reflexão.

João Victor Filier de Araújo, morto pelo próprio pai em Campinas (fonte: UOL/Reprodução/Facebook)
Não vou emitir julgamento e nem comentar sobre essa tragédia familiar ocorrida na virada do ano. Mas 13 pessoas, incluindo o autor, perderam a vida. O que está havendo com a sanidade de nossa sociedade? Li o que já foi publicado na mídia. Vejo muitas lacunas que provavelmente serão elucidadas. Mas nada do que se descobrir trará essas pessoas de volta. O culpado não será punido. Já está morto. Mas existirão outros culpados? Talvez. A mídia e a sociedade farão o que se espera. Condenando um mostro e vitimando mais ainda as vítimas. Não resolverá o problema. 
Meses atrás aqui e no exterior aconteceram três casos seguidos de pais que se mataram junto com os filhos. O que está havendo?

segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

Elize Matsunaga e a misoginia

Elize Matsunaga quando ainda era garota de programa (Foto: reprodução) 



Terminado o julgamento, um júri sonolento e cansado, depois de uma semana enfadonha, composto de quatro mulheres e três homens, condenou a ré a dezenove anos e onze meses de reclusão pelos crimes de homicídio e ocultação de cadáver. Pena dura. Muito dura. Fosse ao contrario, o marido fanfarrão e milionário, talvez tivesse saído pela porta da frente do fórum em liberdade. Mas não. Elize era mulher. Pior, era uma garota de programa que resolveu mudar de vida. Nem suas congêneres no júri perdoaram-lhe o atrevimento. Casamento é lugar para moças de família.

Elize Matunaga era moça de família. Família pobre. Elize foi esposa e é mãe. Elize era tão moça pra casar quanto qualquer outra. Deu azar de conhecer o homem errado. A promessa que fez de lhe tirar da vida difícil durou pouco. No mesmo bordel onde a conheceu sete anos antes, já estava procurando outra putinha aborteira para brincar de maridão. Por coincidência a nova vítima foi colega da esposa. Quase vinte anos de reclusão é muito tempo de sentença em um país onde gente como Marcelo Odebrecht e outros da mesma laia, “matam” milhões e pegam penas irrisórias e ficam reféns de tornozeleiras eletrônicas duvidosas.

quarta-feira, 30 de novembro de 2016

Meu amigo norueguês


Lefse Sløttsstèk é um jornalista norueguês que vive no Brasil há três anos. Correspondente de um periódico de Oslo, capital da Noruega. Logo pela manhã sou acordado pelo seu telefonema. Não fosse o nome na tela do meu celular, o sotaque inconfundível já me avisava quem ligava tão cedo. Lefse fala razoavelmente nosso idioma, embora ainda se confunda com os neologismos e gírias. Sempre me pede ajuda. Mas a dúvida de Lese hoje era sobre o nefasto acidente ocorrido na Colômbia.

sexta-feira, 18 de novembro de 2016

O Luto dos Vivos

Infelizmente vivemos tempos onde pessoas são descartáveis. Na mídia, exemplos diários de celebridades, queiram ou não formadores de opinião, que se separam e uma semana depois já aparecem em outro relacionamento. Isso quando não aparecem com outra pessoa ainda em uma relação anterior. Direito e arbítrio de cada um? Sim. Absolutamente. Comportamento de risco e potencializador de tragédias? Certamente.

Se vivemos a era das relações frívolas e descartáveis, se eu sou descartado como coisa, posso também descartar o outro como se coisa fosse. Muitas vezes de maneira passional, violenta e trágica. Nesses tempos de pressa para tudo, não há mais lugar para o luto. Nem o da morte natural e nem o do fim das relações.

Perder alguém vivo também nos faz passar pelo luto. Essa morte em vida requer tempo de sofrimento, de aceitação e de recomeço, Se não ha esse tempo, onde estão presentes a dor da perda, o medo da solidão e a incerteza do futuro, a vida não pode seguir o rumo natural. Sem o luto, não há renascimento. Somente um ciclo  de agonia, frustração, desespero e medo.

Nos casos mais patológicos sobrevêm a amargura, o rancor, o ódio e o sentimento cruel da vingança. A passionalidade toma conta e as tragédias acontecem. São as mesquinharias da execração pública, a vingança através da alienação parental, a violência verbal e física, muitas vezes culminando com a tragédia do suicídio ou a loucura do assassinato.


Não se trata de justificar nada. De defender partes ou gêneros. Tragédia consumada, não adiantam os comentários acalorados, os linchamentos públicos ou reais. A busca dos culpados. Se a sociedade funciona, a lei será aplicada. Para apaziguar, decidir e punir. Mas se o debate isento, que leva ao estudo e identificação das causas não acontecer, se as mudanças necessárias não se processarem no tecido social, as tragédias dessa era de solidão e egocentrismo continuarão a acontecer e se multiplicar até o ponto do descontrole total e da perda de nossa condição humana.

domingo, 2 de outubro de 2016

Viver com pouco...

Foto: O RAUL DE COPA. Marcelo Ruiz., 2016 - RJ. 
Viver com pouco é perigoso.
Esperança de mais.
Viver com muito também.
O muito não completa.
Muito ou pouco, o vazio está lá.
A agonia do muito ou pouco.
Espreitando.
Entendo os que vivem na rua.
 Não com pouco. Com nada.
Aqueles que vagam nas ruas.
Só com o vazio, que o nada pode conter.
Trapos ambulantes.
Olhares além.
Num mundo que não se vê.
Falando coisas desconexas.
Ausência de um sentido que não há.
Depois emudecem.
Esquecem o nome.
E o nome das coisas.
Se comem é instinto. Sem fome.
Quando dormem é cansaço. Sem sono.
Não se recolhem. Apenas ficam.
Basta um oco ou vão de porta, um buraco.
Onde lhes caibam.
Deixam o corpo ali. Sem medo.
 Nada a perder. A vida se foi.
O que fica é um pulsar límbico.
Como o coma.

Sem a cama...

sexta-feira, 30 de setembro de 2016

Amar, verbo intransitivo?

Fernanda Gentil (Foto: Reprodução/Instagram)

A jornalista Fernanda Gentil declarou em entrevista ao jornal “O Globo”: “Estou só exercendo meu direito de ser muito, muito feliz”, ao revelar publicamente um novo relacionamento com a jornalista Priscila Montandon, que teria se iniciado em julho de 2016. Ela e o empresário Matheus Braga tiveram um relacionamento de quinze anos do qual tiveram um filho. A separação ocorreu em abril desse ano. Em abril ainda, o empresário foi visto em uma festa beijando uma mulher desconhecida.

Não meu caro leitor. Essa não será uma crônica com viés machista – coisa que não sou – e nem para comentar a opção de gênero feita por Fernanda no novo relacionamento. Afinal, é coisa corriqueira, nos dias de hoje, s acabarem os relacionamentos. Também, graças ao bom senso, as opções de gênero, em sua pluralidade e direito de escolha, já estão recebendo o respeito que merecem. Exercício da liberdade de sermos humanos e únicos em nossos gostos e desejos.

Hoje eu quero falar do Amor e do amar. Amar, verbo transitivo. Mario de Andrade criou, quando publicou o livro “Amar, verbo intransitivo”, em pleno Modernismo, uma contradição à norma culta gramatical. Amar sendo um verbo que requer complemento, é transitivo direto. Amor é substantivo. Mas inevitável será, ao falar sobre o tema, se referir a um amar hoje tão banalizado, que se assemelha mais a um verbo intransitivo. Aquele com significado tão completo, que torna desnecessária a junção de objeto direto ou indireto.

Amar que nesses tempos se tornou intransitivo e sem objeto. Um neologismo, como queiram os linguistas. Um verbete popular nas redes sociais. Basta uma foto, um post inspirador e lá vem alguém comentar com um “Amo! ”.  Coisa abstrata. Que hoje pode ser, mas amanhã talvez não. Volátil como os gostos e os desejos. Um modismo cada vez mais aplicado aos relacionamentos. Sejam amizades ou romances. Mas amar requer sempre um sujeito. Que necessita de um complemento: o Outro. Seja esse metafórico mas preferencialmente em carne e osso.

Amar é definitivo. É conclusivo. Ou é ou não é. Não existe meio termo. Não se tem um meio amor. Surge geralmente como conclusão racional entre seres humanos e - suspeito eu - até entre os bichos, de algo que começa com paixão; o mais irracional dos sentimentos. A paixão é o oposto do ódio. Não o amor como muitos pensam. Apaixonamos e odiamos com a mesma intensidade. As duas coisas passam com o tempo. Ou com a volta da razão. O amor, ao contrário se nutre dessa mesma razão e sobrevive ao tempo.  Coisa definitiva. Ou não é amor.

Na tradição das religiões o casamento, não apenas o mero ritual, é tratado como algo eterno e indissolúvel. Não a instituição, que cada vez mais vai à banca rota. Mas o ato confessado por duas criaturas que, conscientes do amor que nutrem um pelo outro, desejam se unir em comunhão. O amar verdadeiro, transitivo direto, não tem fim. E tem endereço certo e sabido. Muitos poetas se referem a ele como armadilha ou precipício. Porque é isso mesmo. No primeiro você entra e não consegue mais sair. Do segundo se atira e não tem volta. Mas sem fatalismos, posto que o amor não é fim nem sina. Amor verdadeiro é destino. É caminho e caminhantes ao mesmo tempo. Não tem pressa de partir nem tempo de chegar. Não vai e não fica. Está.

Quem não amou verdadeiramente está preso, mesmo não estando em um relacionamento, perdido no labirinto da procura. Se achava que amava mas deixou o outro ir ou partiu, amor não era. Ao desistir na primeira curva, derrapou e saiu da estrada. Amor requer resiliência, compaixão, amizade e paciência. Requer principalmente que você entenda seus sofrimentos e os perdoe. Para perdoar também ao outro. Amar não significa estar liberto do sofrimento. Sofrer faz parte da natureza do Não Despertado. Já enunciavam os budistas há milênios. Como também se referiram ao Amor como o caminho para se libertar do sofrimento.

Hoje se ama e desama com a facilidade de trocar a música tocando no celular. Dançamos feio. Mas mudamos o ritmo do sonho de valsa ao lundu. Passando por todos os pares do salão. E continuamos não acertando o passo. Nessa “Noite dos Desesperados” (aproveita e assiste ao filme), dançamos uma vida inteira em busca do premio irrisório. Ninguém quer ficar fora da pista e tão pouco perder o par. E amar é saber dançar. Observar os passos, o ritmo e os dançarinos. Com tempo, encostado em um canto do bar tomando um drinque, enquanto se estuda a situação. Não se escolhe um par e vai à pista para, na primeira pisada, reclamar do parceiro largando-o no meio do salão.

Se você estava com alguém nos dez, quinze ou vinte anos, se tanto, não dá para trocar de par e sair rodopiando no salão. Com o copo na mão e o olhar languido, já agarrando o primeiro que passar. Não dá para ligar o foda-se simplesmente e dizer que o amor acabou. Sinto muito, mas você passou esse tempo todo enganando a dois. O amor não estava ali. Não dá para correr para os braços de outro ou ir para casa. Correndo sozinha pela rua com os sapatos na mão. Dividir os filhos ou abandoná-los com avó ou sogra. Não dá para doar o gato e matar o papagaio. Coitado, sempre o papagaio. Por isso virou anedota. Não dá para desistir dos sonhos e dos construtos de uma vida inteira e ir para o cume do Everest meditar. Podem até lhe aceitar no mosreiro, mas não vai encontrar nada lá.

Sim, acredito que as pessoas possam se enganar ou se iludir. Mas volto a repetir: não era amor. E não vai adiantar seguir na dança das cadeiras porque, no final, você vai sentar no colo de alguém e a última vai quebrar. E mesmo assim você perdeu. Olha, se está desconfortável, mas você gosta do parceiro e da música, tira os sapatos. Vai lá fora com ele tomar um ar. Olhar a Lua. Aproveita passa antes no bar e pede um drink gelado. Depois, lá fora, na brisa fresca da madrugada, faça como na cena do filme: da um suspiro, encosta o copo gelado na testa, abraça o amor e diz pra ele, com aquele olhar apaixonado: vamos pra casa? Eu prometo que vou fazer uma dança especial só pra você...


(Caro leitor, prometo trocar a imagem e o texto introdutório depois da noticia esfriar. Ainda não tenho uma foto autoral pra colocar no  lugar)

terça-feira, 20 de setembro de 2016

Afetos e desafetos...


Quem me dera, nesse velho coração,
Que entrega e recebe tanta emoção,
Tivesse uns cantinhos e escaninhos,
Bem como uns carteiros pequeninhos.
Verdadeiro correio sentimental,
Nessa minha rubra agência postal,
Meus amarelos homenzinhos,
Encarregar-se-iam direitinho
De algumas interromper o caminho.
Seriam as missivas de amigos
Que nunca foram esquecidos,
E as outras, de meus desafetos,
Seguiriam seus rumos corretos.
Para a secção de perdidos objetos.

Dedicado à amiga Sônia Fernandes.

Brasília, Outubro de 2013

Esperanças de jardim...

Foto: Marcelo Ruiz - ESPERANÇA, Exposição Terra Brasilis, 1991 - Fortaleza - CE 
Plantei esperanças.
Nasceram saudades.
Deixei ficarem.
Esparramadas ao sol,
Modorramente cantavam:
Não nos arranque,
Nesse solo feneceremos.
E espalhados nossos grãos,
Por tempos e ventos
De quem não conheces
Caprichos ou vontades,
Renasceremos.
Salpicaremos teu campo
Com alegrias-de-jardim,
Variedades de bens-te-querem,
Miríades de acalantos
E raminhos de solicitude.
E decerto algumas soledades.
Somente para te mostrar
Que não somos vãs.
Semeaste esperanças.
E aqui estamos.
Todas nós...

sábado, 17 de setembro de 2016

Campo de pesadelos...

Canadian author W.P. Kinsella stands on the baseball field before game five of the World Series between Toronto Blue Jays and Atlanta Braves at the Skydome in Toronto, Ontario, Thursday, Oct. 23, 1992. W.P. Kinsella, the B.C.-based author of "Shoeless Joe," the award-winning novel that became the film "Field of Dreams," has died at 81.

Photograph by: RUSTY KENNEDY , Vancouver Sun


Como setembro é o mês em que está se falando de prevenção ao suicídio, a morte assistida de WP Kinsella, um premiado escritor canadense autor do best seller "O Campo dos Sonhos", me leva a pensar sobre a dignidade da vida e da morte. Eutanásia ainda é um tabu. Mas quando vejo o sofrimento de pessoas queridas, que desenganadas, precisam passar pela agonia de uma morte degradante, sintoo dever de falar sobre esse tema. 

Seja por decisão da família, quando o moribundo não tem mais condições de manifestar seus desejos de forma clara, ou seja por vontade própria, como no causo do autor e muitos outros, o direito de sessar a própria existência deve ser reconhecido e respeitado.

Seguramente não é assunto de interesse da industria farmacêutica, da classe médica e dos hospitais. Fora as fraudes, da para imaginar o volume de dinheiro que corre sustentado pela indústria de manutenção do estado vegetativo e dos cuidados médicos que, no fim, não levarão a lugar algum , senão a uma bela lápide em um campo de pesadelos.

Felizmente para Kinsella, seu país natal, o Canadá, passou a permitir a morte assistida a partir de junho de 2016. Decisão memorável vinda de uma nação conhecida por ter um dos melhores sistemas de saúde e assistência social  gratuita no mundo. Respeitar o direito a saúde e qualidade de vida significa acolher também a vontade manifestada, por qualquer pessoa que veja em uma morte dolorosa, sua ou de um parente, uma forma de crueldade e de privação de direitos constitucionais.